quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ótica de vizinho que veio do nordeste

"Olí, meu povo, eu vô contá o que acunteceu cum uma família alí perto du riu.
Um homi dexô a mulé e us fíu e foi se imbora numa canoa. Cumu é qui pode?
eu ja vi di tudo nessa vida, mas esse homi aí é mucho loco! Ele dexô a mulé
que é um pitéu e se debando pra num sei donde numa canoa véia. Se ainda
fosse nun iati, eu ainda digo, mas numa canoa?! Será que a mulé dele num
num tinha os dente e tala loco pra ir embora? Mas ói, coitado dus fíu dele!
Tão tudo doidinho, doidinho!!! Todo Santo dia dexu cumida na bera du riu,
será que eles num sabi que iemanjá é nu mar e nao nu rio???
E a irmã dele, qui levó o mininu dela, dexó o bichiu no sol quente da peste
e fico gritando pelo pai!! Ô povo doidio!!! Mas o mais ingraçado foi quando o
fiu mais homi disse que tinha visto o fantasma du pai e se cagó todinho!
Gente, eu tenho aqui com a minha bestera, que esse homi, saiu daqui ás
pressa numa canoa véia por que foi ele qui ganhó nessa mega sena e de
doidiu ele não tem nada!!!"

Verena Vieira

Ótica do pai


Cansado já estava decidir sair da minha casa, e abandona minha família, não agüentava mais aquela mesmice.Então mandei fazer uma canoa bem resistente para durar pelo menos três décadas, para pensar e viver minha vida solitariamente.Não quero levar nada porque não quero ter lembranças.
Remei, remei, remei e acenei, fiu embora para nunca mais voltar, a margem que me espere porque ela que vai ser a minha família, estava passando por momentos dificies que nem se explicar, era então um problema meu e do rio.


Felippe Batista



Ótica da estrela

Nascer de novo...
Buscar algo que não se vê...
Encontra com o nada...
Viver sem nada...
Amar sem fronteiras...
Pobre homem que nada sabia...
Nem mesmo o que dizia...
Pobre familia!
Sem amor, sem nome...
Pobre cidade...
Amiga floresta...
De céus em cores
Virtudes em nomes...
Doces sabores...
Rema pobre coitado...
Sou eu a ti guiar, nas noites frias sem luar...
Me pede que eu te guarde...
Que eu te proteja...
Que te gui!
Que te leve de volta...
Triste a remar...
Pobre homem...
Sem dor,sem nome!!!
Apenas um homem....

Por Vagda Santana em 20 de abril de 2010. Baseado na obra de Guimarães Rosa, A Terceira Margem do rio.

Ótica do pai


A vida aqui segue andando pacata, ordeiro, igual...  E eu como as outras pessoas desse lugar, acompanho o ritmo dessa vida.
Consideram-me um homem cumpridor dos deveres, ordeiro e quieto e é dessa maneira que minha família me enxerga, por fora é de fato  assim que sou. Estaria tudo certo e normal se por fora se combinasse, fosse igual por dentro, mas não é o que acontece.
                Por dentro, porque tanta insatisfação, tantos questionamentos e esse turbilhão de sensações e aflições, essa eterna agonia?  Inquietude... Pasmaceira.
Cheguei à conclusão, observando-o por minha vida toda, que sou como ele -o rio - quieto, ordeiro, silencioso... Mas basta ser provocado, por um rajado de vento que seja pra ele se rebelar e quando por uma tempestade então..., para que se conheça a sua força, a sua fúria, a sua grandeza, aí ele se mostra gigantesco, poderoso, como realmente é a sua natureza.
O que verdadeiramente existe nas suas profundezas e da sua misteriosa existência, ninguém seguramente sabe.
Continuo sonhando constantemente com o rio, confundo a minha realidade com o sonho do rio. Eu sou eu, eu sou o rio, o rio sou eu...
Agora sim... nesta minúscula canoa, eu me completo com o rio e o rio se confunde comigo, estou calmo, ordeiro, quieto em paz com a minha natureza... Eu sou a terceira margem do rio.

SELMA MARIA SANTOS BRANDÃO

Ótica do neto

[Escrevi o conto na visão do neto. Escrevendo um carta pro tio que foi morar na cidade]

Tio,
O senhor sabe que quando eu cheguei, ele já tinha partido, tudo que eu sei foi porque minha mãe me contou. Lá no vilarejo fiquei conhecido como Simba, depois descobri o porque, foi quando em cima de uma pedra e sob a sombra de um guarda-sol fui erguido diante do rio. Queria ter conhecido meu avô, homem honesto, amigo de todos, queria ter conhecido, principalmente, pra saber porque ele foi embora, cada um diz uma coisa diferente, mas só ele poderia me contar o verdadeiro motivo que o fez partir, quem sabe eu não partisse junto com ele.
Faz tempo que não vou para a margem do rio, vovó não gosta, ela diz que não é bom ficar lembrando dos que já partiram, mas eu sei que ela ficaria plantada na margem se pudesse, ela não se juntou com mais ninguém, e de noite quando finjo dormir, percebo nos olhos cheios d’água dela um brilho de esperança, de que ele amanhã estará batendo na porta. Mas como seria possível? Ele nem mesmo sabe onde moramos, meu tio continuava lá sozinho, fazia tempo que não escrevia uma carta pra gente. Na ultima, ele disse que o vovô acenou pra ele, mas com medo, saiu correndo.
Em alguns dias vou pra lá, vou passar um tempo com meu tio - escolha minha - mamãe não gostou, mas entendeu, ele precisa de alguém lá, não tem mais vida, a vida dele é a vida do pai, e se é pelo meu avô, partia hoje se eu pudesse.
O titio está acabado, nem o reconheci quando cheguei, a casa quase não era mais casa, a madeira dava de comer aos cupins. Dia e noite, sol e chuva, seu irmão não sai da margem do rio, se eu não levar o que comer, ele não vem buscar.
Mesmo depois de tantas e tantas luas, o vovô ainda é comentado pela cidade. Me contaram que toda lua cheia os mais chegados se reúnem na margem do rio e rezam. Eu mesmo, já presenciei algumas vezes, uns pedem milagres, outros agradecem o que conseguiram. Confesso que não entendo, meu avô virou Santo? Entidade? Deus? Porque ele não continuou sendo apenas meu avô, e ficado por aqui?
O titio não anda muito normal, um dia desses tive a impressão de que ele tava conversando com uma pedra. Peixe nem comemos mais, ele disse que qualquer coisa que vem do rio pode ser um pedaço do vovô, e que ele vai sentir dor. Sei que não teria como isso acontecer, mas obedeci. O problema é que o almoço demora mais pra sair, porque caçar na floresta não é fácil.
A vovó reclamava que o senhor não deu mais noticias desde que foi embora, mas vi aqui algumas cartas do senhor, acho que o senhor não sabe, mas a vovó foi morar com a mamãe, por isso ela não recebia suas cartas, mas vou mandar pra ela todas que o senhor mandou pra cá, ela ficará feliz, ela vivia choramingando com a mamãe por não ter noticias suas. Falava: “Já perdi meu homem, um filho não quis vim comigo, e agora, o outro esquece que tem mãe! Só você mesmo pra lembrar de mim.”
O senhor agora tem uma sobrinha também, mamãe deu a luz um mês atrás. A casa era só alegria. Ainda mais quando deram o nome dela à neta. Só assim vi um sorriso no rosto da vovó depois de tanto tempo.
Assim que acontecerem novas coisas, eu escrevo pro senhor. Se cuide por ai.

Sobrinho.

(Autor: Diogo Favacho Arero)

Ótica do Pai

E fez-se mar. Ou melhor, fiz-me rio. Fiz-me rio para nunca morrer, porque rio não morre. Quando ele deságua no mar, ele continua sendo rio. Mar, rio, água, transparência, calmaria e loucura. Fiz-me rio para fugir de mim mesmo. Das minhas angústias, pequenezes e monstros. Para desmilinguir-me entre as suas claras águas. Para esquecer do passado.
E porque tão próximo de casa? Porque rio também ama e sente saudades. Quero, quando sou rio, molhar devagar os pés daqueles que amo e tive de deixar. Quero cochichar algo em seus ouvidos, dizer que estou bem, que estou onde eu sempre quis estar.
O amor que tenho pelo rio é tão imenso que não me contentava somente em tê-lo, queria sê-lo. Nunca tive a curiosidade de saber o que tinha na outra margem, o que de verdade sempre quis, foi ser margem. A terceira margem do rio e ali viver para nunca mais morrer.

Thainá Oliveira.
Por muito tempo minha mãe sofreu com a solidão. Todas as vezes que escutava o canto dos pássaros, o barulho do rio descendo a montanha em queda livre formando um lindo véu de noiva. Chegava a se emocionar! Partia o coração ao vê o silêncio da sua dor. Por muito, anos acompanhei seu sofrimento, não só pelo abandono do meu pai, mais pelas palavras das línguas maldosas daquele lugar, típico do interior.

Mas foi naquela tarde, uma tarde diferente de todas que já vi. Chovia! Mais não como aquela que estamos acostumados, com raios, trovão e alagamento. Não! Era uma chuva silenciosa, calma, fria, cautelosa. Cheguei a senti a ansiedade nos olhos de minha mãe ao escutar a melodia triste de um sabiá que temia em está ali nas árvores do jardim. O seu canto era como um chamado. Minha mãe passou a segui o seu canto, chovia muito. Ela não usara nem o guarda chuva, nem uma capa para se proteger, apenas quis segui o seu coração que voltava a bater forte. Ouve momentos em que o sabiá se aproximava, indicando-lhe o caminho a ser seguido, o mais engraçado é que ela entendia tudo, cada gesto daquele pequeno pássaro. Eu a seguia me escondendo por entre as arvores e moitas de mato que encontrava pelo caminho. Até chegamos as margens do rio.

O pássaro pousara em seu ombro esquerdo e um canto meloso fez, saí lágrimas de seus belos olhos. Como se falasse com ela. Eu nada entendia. A chuva era mais suave que seu canto, o rio enchera de borboletas brancas, azuis, amarelas, verdes, de todas as cores e formava um lindo balé, a melodia daquela canção. Uma nuvem branca, mais leve que um algodão cobria o rio. Um lindo espetáculo da natureza! Minha mãe não me via, pois, eu estava escondido por entre os arbustos próximo do rio.

Fazia muito frio, estávamos encharcados! Quando surge por entre as águas mansas do rio, aquele homem de barba branca, roupas surradas, chapéu de palha e uma capa de couro velho. Suas mãos remavam tranquilamente, levando a canoa até as margens do rio. Qual não foi o meu espanto ao reconhecer que aquele homem era o meu velho e amado pai. Ele já não era o mesmo! Senti uma vontade louca de vê-lo de perto, abraça- lo, e dizer a ele o quanto eu o amava. Mais era a minha mãe que ele chamava! Seus olhos cruzaram aos dela, como se os orixás, guinômos, fadas, e todos os deuses da floresta os uni-se em um só coração.

Ele desceu da canoa, suas botas já não eram as mesmas. Minha mãe não sabia se odiava ou se o abrasava. Ele tocou seu rosto, ela apenas o encarava, caia de seus olhos lágrimas de emoção, mágoa, abandono. Eles apenas se olharam, um olhar profundo cheio de duvidas, perguntas e respostas que nunca vieram.

_Por que, demorou tanto? – Foram as únicas palavras de minha mãe. Eles se abraçaram e o resto vocês já até imaginam. Foi mágico, romântico. Até que ele subiu na canoa e num gesto de adeus partiu e nunca mais voltou.

A chuva havia passado, uma brisa suave nos confortava. Corri abracei minha mãe. As borboletas sobrevoavam sobre o rio, os pássaros em silêncio ficaram e toda floresta se calou ao canto do irapurú. Vi meu pai desaparecer nas águas do rio. Compreendi naquele dia que a vida é cheia de surpresas e que o amor é algo tão simples, tão delicado que poucos são privilegiado, com tal sentimento.

Voltamos para casa, não lhe perguntei nada, apenas respeitei sua dor. Agora meu pai se tornara uma lenda, um mito, um homem que se perdeu nas margens do rio...

Por Vagda Santana, em 15 de abril de 2010, baseado na obra de Guimarães Rosa, A terceira Margem do Rio.